Jorge Braz anuncia convocados para o Euro 2026: escolhas difíceis, adversários exigentes e a convicção de voltar a ser Portugal
Há momentos em que uma convocatória deixa de ser apenas uma lista de nomes e passa a ser um espelho do tempo que se vive. Esta foi uma dessas manhãs. No Auditório 1 da Cidade do Futebol, cada cadeira ocupada carregava expectativa, cada silêncio antecipava decisões difíceis e cada nome anunciado trazia consigo histórias que não cabem em 14 lugares. Portugal prepara-se para mais um Campeonato da Europa de Futsal como bicampeão, mas também como seleção que aprendeu que o passado não resolve o presente. Entre continuidades, ausências de peso e um grupo europeu exigente à espera, a convocatória de Jorge Braz foi, acima de tudo, uma afirmação clara: o futsal português cresceu ao ponto de já não caber inteiro numa lista final.
O Auditório 1 da Cidade do Futebol encheu-se bem antes da hora marcada. Jornalistas, elementos da estrutura técnica nacional e uma expectativa silenciosa compunham o cenário minutos antes de Jorge Braz entrar na sala para anunciar os 14 convocados para o Campeonato da Europa de Futsal 2026, que se disputa entre 21 de janeiro e 7 de fevereiro, na Eslovénia, Letónia e Lituânia.
Portugal parte para a competição como bicampeão europeu, mas o discurso do selecionador deixou claro desde o primeiro momento que o estatuto não oferece atalhos. O Europeu começa do zero — em identidade, exigência e responsabilidade.
Os convocados de Portugal
Edu, Bernardo Paçó, André Coelho, Tomás Paçó, Afonso Jesus, Érick, Tiago Brito, Diogo Santos, Pauleta, Lúcio Rocha, Pany Varela, Kutchy, Bruno Coelho e Rúben Góis.
Uma lista de continuidade, mas também de densidade competitiva, algo que Jorge Braz assumiu como um dos traços mais marcantes desta convocatória.
“Ficou quase uma equipa inteira de fora”
A frase marcou a conferência e sintetizou o momento da seleção. Pela primeira vez de forma tão clara, Jorge Braz assumiu que Portugal vive uma realidade rara: há mais talento disponível do que espaço numa convocatória final.
“É a primeira vez que sinto isto de forma tão clara: ficou quase uma equipa inteira de fora que poderia ir a este Campeonato da Europa e os objetivos não se alteravam.”
Longe de encarar isso como um problema, o selecionador sublinhou o lado positivo.
“Temos de olhar para isto de forma extremamente positiva. É algo muito agradável para o futsal português. Há soluções, há variabilidade, há qualidade.”
A escolha, reforçou, foi estritamente competitiva e contextual.
“Estes são os 14 que, neste momento, achámos que nos dão mais competência coletiva e variabilidade para enfrentar aquilo que vamos encontrar neste Europeu.”
Zicky Té: ausência de peso, decisão de momento
Entre as ausências mais faladas está Zicky Té, um dos jogadores mais influentes do futsal português recente. Jorge Braz foi claro: o valor do jogador não está em causa.
A ausência de Zicky enquadra-se exatamente na lógica explicada pelo selecionador: escolhas feitas em função do momento competitivo, das necessidades específicas da competição e daquilo que se pretende enfrentar taticamente no Europeu.
“Humanamente é sempre muito difícil para o selecionador nacional. Profissionalmente, há decisões para tomar.”
Zicky simboliza, talvez como ninguém, a ideia central desta convocatória: ninguém ficou de fora por falta de qualidade, mas por opção estratégica.
João Matos e o peso humano das decisões
A ausência de João Matos, capitão histórico e jogador mais internacional de sempre, foi abordada com particular cuidado. Jorge Braz afastou qualquer ideia de “fim de ciclo”, sublinhando antes a dimensão humana da decisão.
“Hoje, o importante são estes 14. O lado humano é sempre o mais difícil nestas coisas.”
O selecionador recordou o que João Matos representa — para a seleção e para si próprio — mas explicou que as decisões são tomadas olhando para o presente.
“O João representa muito para mim. Mas temos de olhar para os objetivos que temos e para o caminho que queremos seguir. Ele já não tem estado connosco nos estágios desta época.”
A mensagem foi clara: respeito total, sem apagar legado, mas com foco no agora.
Experiência e irreverência: continuidade, não rutura
Jorge Braz rejeitou qualquer leitura de mudança de ciclo. Para o selecionador, o que está em curso é a continuidade natural de um processo que tem sustentado Portugal no topo.
“Não é mudança nenhuma. Em 2018 foi o André, no Mundial foram o Lúcio e o Kutchy, agora são o Rúben e o Diogo. É um processo normal.”
A irreverência dos mais jovens foi valorizada de forma clara.
“Há aquela irreverência, até uma irresponsabilidade positiva, que é extremamente importante para mim.”
Mas sempre equilibrada pela experiência.
“Depois há momentos de tensão em que o saber viver o jogo é decisivo. Aí, os jogadores mais experientes são fundamentais.”
Grupo D: três adversários, três desafios distintos
Itália surge como uma seleção novamente experiente e competitiva.
A Hungria é vista como uma equipa altamente organizada.
Já a Polónia representa crescimento e intensidade.
Apesar do respeito, a ambição foi afirmada sem rodeios:
“São adversários difíceis, diferentes entre si, mas o grupo é para vencer. Ponto.”
Ljubljana: casa simbólica, futuro em foco
O regresso a Ljubljana, palco do Europeu de 2018, foi encarado com serenidade.
“O passado orgulha-nos, mas não nos dá pontos nem golos.”
Para Jorge Braz, a memória conforta, mas não decide.
“Queremos boas sensações no futuro, não no passado.”
Bicampeões sem peso, com identidade
Questionado sobre a pressão de entrar como bicampeão europeu, Jorge Braz recusou essa narrativa.
“Somos bicampeões, mas isso não nos dá nada no jogo seguinte.”
A exigência passa por voltar a ser Portugal — melhor.
“Temos de voltar a ser Portugal. Não o Portugal do passado, mas ainda melhor.”
Conclusão
Entre escolhas difíceis, ausências simbólicas como as de Zicky Té e João Matos, e um grupo europeu exigente desde o primeiro dia, Portugal prepara-se para mais um grande palco com confiança serena, identidade forte e ambição clara. O Europeu não será decidido pela história, mas pela capacidade de competir no presente. E, como deixou claro Jorge Braz, Portugal está preparado para esse desafio.
Quando o Europeu começar, nada do que foi conquistado antes entrará em quadra. Não entram títulos, não entram memórias, não entram estatutos. Entram decisões, identidades e a capacidade de competir quando tudo aperta. Portugal parte com ambição, mas também com a lucidez de quem sabe que o caminho será exigente desde o primeiro jogo. Ficaram de fora jogadores que podiam ir, nomes que marcaram ciclos e figuras que fazem parte da história recente da seleção. Entraram outros que trazem irreverência, frescura e a coragem de jogar sem medo do contexto. Entre Itália, Hungria e Polónia, não haverá espaço para distrações nem para nostalgia. Haverá apenas futsal no seu estado mais puro: pressão, escolha e responsabilidade. No fim, o que ficará não será quem foi convocado ou quem ficou de fora, mas se Portugal conseguiu, mais uma vez, voltar a ser Portugal quando o jogo deixou de ser confortável e passou a ser verdadeiramente decisivo.