Stožice Outra Vez: Portugal, Itália - Onde a memória encontra o presente
Há jogos que são apenas jogos.
E há jogos que são lugares de memória.
Portugal–Itália, na estreia do Europeu 2026, é mais do que um pontapé inicial. É um regresso. Um regresso ao sítio onde o futsal português deixou de prometer e passou a cumprir. Onde deixou de sonhar e passou a vencer. Onde deixou de pedir licença e passou a sentar-se, com naturalidade, à mesa dos grandes. O jogo disputa-se este sábado quando em Lisboa marcarem as 13h30 e é o início do "escalar da montanha" no Europeu de Futsal 2026.
É na Arena Stožice, em Ljubljana, que tudo começa outra vez. Foi ali, em 2018, que Portugal se olhou ao espelho e percebeu que já não era apenas talento disperso, nem uma geração dourada à procura de destino. Era equipa. Era ideia. Era processo. Um livre de dez metros, convertido por Bruno Coelho — hoje capitão — selou mais do que um título: selou uma identidade. A partir desse momento, Portugal passou a carregar um peso diferente. O peso de quem sabe ganhar.
Desde então, muita coisa mudou. Jogadores saíram, outros chegaram. Capitães ficaram pelo caminho - Ricardinho a estrela maior do futsal nacional e mundial - ciclos fecharam-se, novas histórias começaram. Mas uma coisa permaneceu intacta: a forma como esta Seleção compete. Com rigor. Com inteligência. Com sofrimento assumido. Com a consciência clara de que, no futsal internacional, vencer não é dominar sempre - é saber quando sofrer, quando acelerar e quando decidir.
A missão do tricampeonato europeu começa agora. Mas não começa do zero. Começa com memória, estatística e maturidade competitiva. Começa com uma Seleção que aprendeu a viver dentro das fases finais como quem conhece a casa às escuras. Que sabe jogar com a pressão de ser favorita. Que sabe errar e corrigir. Que sabe que o detalhe separa candidatos de campeões.
Uma Seleção construída no detalhe
Portugal chega a este Europeu não apenas com títulos na bagagem, mas com homens moldados pelo detalhe. Esta não é uma Seleção feita de nomes soltos nem de brilho individual acumulado. É um corpo que aprendeu a reagir, a adaptar-se, a sofrer e a decidir.
No centro está Bruno Coelho, 38 anos, o elo entre gerações. Capitão sem pose, líder sem teatro, memória viva de um caminho longo, feito de quedas, aprendizagens e conquistas. Ao seu lado, André Coelho, leitura pura do jogo, equilíbrio silencioso, inteligência posicional que raramente aparece nas estatísticas, mas quase sempre no controlo dos momentos críticos. E Pany Varela, o desequilíbrio que já não precisa de provar nada, mas continua a decidir jogos como se ainda estivesse a lutar pelo primeiro lugar.
Há depois quem sustente a máquina: Tiago Brito, intensidade e fiabilidade; Afonso Jesus, compreensão profunda do coletivo; Ricardinho não está, mas o legado está espalhado em cada decisão tomada com critério. Esta equipa joga sabendo quando não jogar.
E há, sobretudo, o futuro a acontecer agora.
Lúcio Rocha, 21 anos, não carrega protagonismo - carrega tempo bem aproveitado. Aparece onde o jogo pede. Diogo Santos traz energia crua, irreverência controlada, alguém que ainda não viveu fases finais, mas que não entra nelas como visitante. Rúben Góis chega não por promessa, mas por merecimento: sobreviveu ao erro, à lesão, ao silêncio - e regressou com maturidade mental rara.
Na baliza, Portugal não tem alternativas: tem convicção. Edu representa serenidade e decisão limpa. Bernardo Paçó traz coragem, explosão e a capacidade de subir com bola e mudar o desenho do jogo. Nenhum é plano B. Ambos são plano Portugal.
Este grupo não joga para esconder ausências.
A ausência de João Matos não é um vazio - é herança.
A ausência de Zicky não é dramatizada - é integrada.
Aqui, como diz Jorge Braz, o erro não é pecado. É matéria-prima de crescimento.
Do outro lado, a Itália: experiência, astúcia e perigo
E é precisamente por isso que Portugal não entra distraído.
Do outro lado está a Itália. Uma seleção histórica, orgulhosa, ferida nos últimos anos, mas nunca irrelevante. Duas vezes campeã europeia, com um passado que impõe respeito imediato. A última meia década foi dura, é verdade. Mas reduzir a Itália ao momento seria um erro básico.
Esta é uma equipa envelhecida, sim, com uma média de idades de 32 anos, mas profundamente conhecedora do jogo. Gente que sabe esconder fragilidades, baixar o ritmo quando é preciso e explorar qualquer distração do adversário.
O rosto mais visível continua a ser Alex Merlim. O eterno jogador do Sporting CP não precisa de apresentação em Portugal. Merlim não vive do passado: vive da leitura, da pausa, do gesto certo no momento certo. Mesmo quando não decide diretamente, condiciona tudo à sua volta.
Mas a Itália não é só Merlim.
Gabriel Motta é outro nome que obriga a atenção total: intensidade, agressividade positiva, chegada constante às zonas de decisão. Um jogador que percebe quando acelerar o jogo e quando o tornar incómodo. A isto junta-se uma base de atletas experientes, com muitos jogos internacionais no corpo, que sabem transformar jogos equilibrados em terrenos instáveis para o adversário.
É por isso que este jogo exige alerta máximo desde o primeiro segundo. Porque a Itália não perdoa faltas de foco. Porque a Itália cresce quando o adversário se sente confortável.
Identidade contra rótulos
Portugal sabe isso. Jorge Braz sabe isso.
Esta equipa sabe que o maior risco não está no adversário, está em desviar os olhos de si própria.
E é aí que reside a sua maior força: olha-se sempre primeiro ao espelho. Confia no processo. Confia no coletivo. Confia numa ideia de jogo construída ao longo de mais de uma década.
A bola vai rolar onde Portugal aprendeu a ganhar.
E quem já chegou ao topo sabe uma coisa essencial: ninguém defende um título, constrói-o outra vez, jogo a jogo, decisão a decisão.
É assim que começa.
Com memória.
Com identidade.
Com a mesma ambição de sempre.
Carlos Simões, treinador Futsal Nível III