Hungria–Portugal: quando a tática deixa de ser desenho e passa a ser decisão



O segundo jogo do Grupo D coloca frente a frente duas seleções vencedoras na estreia, mas com caminhos distintos até ao resultado. Portugal chega mais exposto, mais observado, mais estudado. Hungria chega confortável no papel de quem espera.

É aqui que a tática deixa de ser desenho e passa a ser decisão.


Portugal entra nesta segunda jornada não apenas com três pontos, mas com algo mais difícil de quantificar: tempo partilhado em campo. Minutos semelhantes. Ritmos comuns. Decisões reconhecidas antes de serem pedidas. É neste detalhe invisível que este grupo começa a elevar o patamar.

Frente à Itália, Portugal voltou a mostrar algo que já não surpreende, mas continua a ser difícil de travar: a capacidade de variar dentro do mesmo jogo. A base em 1:4:0, longe de ser estática, vive da mobilidade, da ocupação racional dos corredores interiores e do falso pivô como motor de decisão.

Não há choque, há leitura. Não há pressa, há intenção.


Essa dinâmica será central frente a uma Hungria disciplinada por dentro, capaz de fechar o corredor central e de resistir longos períodos sem bola. O falso pivô português não procura contacto; procura solução. Baixa para ligar, arrasta marcações, abre espaço para o ala contrário.

Se a Hungria salta, Portugal acelera. Se espera, Portugal circula até ferir.


E quando o jogo pede outra linguagem, Portugal responde. O 1:3:1, com Góis como referência, surge para fixar mais alto, obrigar o bloco adversário a decidir atrás e redesenhar o mapa ofensivo. Não para jogar de costas de forma clássica, mas para fixar, soltar e reaparecer.

Uma alternância que cria segundos postes mais limpos e novas leituras nas bolas paradas.


Mas este Portugal não vive só de estrutura.

Vive de relações.


Kutchy foi faísca e rasgo. Entrou para acelerar quando o jogo pediu coragem, sustentado por Diogo Santos, Afonso Jesus e Lúcio Rocha. Não desequilibrou por instinto. Desequilibrou porque o contexto o libertou.

No controlo, Bruno Coelho voltou a ser o jogador que organiza o caos. Ao seu lado, Pauleta trouxe largura e intensidade, enquanto Tomás Paçó deu serenidade defensiva e inteligência posicional.

Não foi um trio de brilho, foi um trio de confiança.

E há Erick.

A solução total. Ala, fixo, pivô. O universal que entende o jogo em todas as suas velocidades. Para Jorge Braz, o melhor universal do mundo porque dá respostas onde o jogo pede — e raramente pede errado.


Na frente, a alternância voltou a ser chave. Pany Varela e Tiago Brito partilharam impacto e responsabilidade. Um traz imprevisibilidade, o outro verticalidade. Juntos, complementam-se.
Ao lado deles, André Coelho e Góis ofereceram duas leituras distintas do mesmo espaço: mobilidade e fixação a coexistirem sem conflito.

E depois há a baliza. O lugar onde o silêncio pesa mais.

Bernardo Paçó mostrou segurança e presença, mas este é um grupo onde até isso é partilhado. Edu Sousa pode surgir. Não como ruptura, mas como continuidade. Porque aqui, até o lugar mais solitário faz parte do discurso coletivo.


Do lado húngaro, a vitória frente à Polónia foi menos exuberante, mas talvez mais reveladora. Não foi um jogo de domínio contínuo; foi um jogo de gestão emocional. A Hungria mostrou-se confortável no desconforto, capaz de esperar sem se desorganizar e de atacar quando o jogo se abriu.

Defendeu baixo durante largos períodos, protegeu o corredor central com rigor e aceitou que a bola fosse do adversário. Não por incapacidade, mas por opção. Quando recuperava, não acelerava sem critério: procurava o passe seguro, a transição limpa, o momento certo.

É uma equipa que não se perde na ansiedade — e isso, em torneios curtos, vale muito.


O detalhe decisivo esteve precisamente aí: na paciência. A Hungria soube resistir, sobreviver e decidir quando o jogo entrou na zona onde um erro muda tudo. Não venceu porque criou mais. Venceu porque errou menos.

Esse perfil encaixa perigosamente bem contra seleções dominantes. Frente a Portugal, a Hungria sabe que o jogo será longo, que haverá momentos de cerco e que a chave estará na concentração prolongada.

Neste nível, não é o erro grande que mata, é o detalhe.


A Hungria não vai querer um jogo aberto. Vai querer tempo, controlo do espaço e ritmo baixo. Vai tentar empurrar Portugal para decisões exteriores, fechar o coração do jogo e viver das pequenas brechas.

É por isso que este duelo é tão interessante: não é talento contra organização.

É variação contra resistência.


Portugal chega com mais armas, mais soluções e mais profundidade. A Hungria chega com uma ideia clara, um bloco sólido e a tranquilidade de quem sabe sofrer.

No fim, como quase sempre neste nível, não ganha quem tem mais bola.

Ganha quem entende melhor o jogo que está a acontecer e quem consegue mantê-lo no território que lhe convém.


Mas este Portugal joga algo maior do que o resultado imediato.

Joga uma ideia de futsal onde o talento serve o coletivo, onde a emoção não anula a lucidez e onde cada decisão carrega a história do grupo.


Este jogo não é só sobre liderança do grupo.

É sobre mostrar, outra vez, que o futsal pode ser pensado, sentido e jogado ao mais alto nível.


E quando isso acontece, o resultado costuma respeitar o processo.


Por Carlos Simões | Treinador de Futsal Nível III


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