O desafio das modalidades em Portugal, por Rui Lança




Rui Lança alerta para fragilidade estrutural das modalidades e defende estratégia coletiva para o futuro do desporto nacional

Artigo publicado a 12 de fevereiro de 2026, no jornal ABola, analisa o peso excessivo do futebol, as dificuldades económicas das modalidades e aponta soluções estruturais para o sistema desportivo português.


Portugal continua a ser um país de “mono-modalidade”, onde o futebol domina a atenção mediática, os patrocínios, os direitos televisivos e o espaço emocional dos adeptos. A reflexão é de Rui Lança, diretor desportivo do Al Ittihad, no artigo “O Desafio das Modalidades em Portugal”, publicado a 12 de fevereiro de 2026.

Logo nas primeiras páginas, o autor sublinha que encarar o futebol como inimigo das restantes modalidades é um erro estrutural. A realidade traz desafios — económicos, mediáticos e organizacionais — mas pode também representar uma oportunidade, se houver visão estratégica e coordenação entre federações e clubes.


Futebol concentra receitas e visibilidade

O futebol ocupa a maioria dos canais televisivos e capas de jornais, mesmo quando outras modalidades conquistam títulos internacionais. No entanto, apesar dessa centralização, continuam a existir desigualdades económicas profundas. A centralização dos direitos televisivos e a partilha de receitas europeias não têm sido suficientes para garantir sustentabilidade transversal.

Segundo Lança, “economicamente e socialmente, existem dificuldades e incapacidades reais”.


Dois modelos de clubes, desafios semelhantes

O artigo distingue dois tipos de clubes predominantes nas modalidades de pavilhão:

Clubes multimodalidade, muitos com futebol integrado;

Clubes monomodalidade, frequentemente especializados numa ou duas modalidades.

Os clubes com futebol tendem a possuir estruturas mais profissionalizadas, mas as modalidades são muitas vezes tratadas como investimento reputacional e não como ativos estratégicos. Já os clubes dependentes de apoios públicos, patrocínios reduzidos ou até da iniciativa individual de dirigentes enfrentam enormes dificuldades para sobreviver.

A receita direta de bilheteira é baixa, os patrocínios são geralmente insuficientes e a exposição mediática é irregular e fragmentada .


Impacto económico e redução de investimento

O contexto económico nacional agrava o cenário. Como refere o artigo, as intempéries, crises económicas e reorientação de prioridades públicas obrigam municípios a canalizar recursos para áreas sociais prioritárias.

Paralelamente:

O setor televisivo está financeiramente mais estrangulado;

A nova geração cria maior ligação aos atletas do que aos clubes;

O crescimento económico frágil reduz rendimento disponível.

Naturalmente, as marcas investem onde existe maior consumo desportivo — e esse continua concentrado no futebol.


Problema estrutural: calendário e concorrência interna

Um dos pontos mais fortes da análise, Rui Lança identifica falhas organizacionais graves:

Finais de diferentes modalidades disputadas no mesmo dia e à mesma hora;

Sobreposição de eventos do mesmo clube;

Falta de coordenação entre federações;

Disputa direta por audiências e espaço televisivo.


“É difícil considerar isto positivo para alguém”, escreve o autor.

O adepto português tende a ser adepto do clube e não da modalidade. Se a equipa de futebol joga ao mesmo tempo que a equipa de andebol ou futsal, muitos optam pela televisão em vez do pavilhão.


Federações trabalham em silos

Outra crítica estrutural: a maioria das federações atua isoladamente, sem verdadeira articulação estratégica. Mesmo o futsal — modalidade altamente profissionalizada — enfrenta desafios internos e perde oportunidades de capitalização dos seus momentos âncora, como Supertaças e finais.

Sem escala de mercado, sem narrativa comum e sem coordenação, as modalidades tornam-se progressivamente mais frágeis.

Os sucessos das seleções nacionais podem mascarar o problema, mas não o resolvem.


Caminhos propostos

Na última parte do artigo, Rui Lança apresenta soluções claras:

Planeamento conjunto e constante de calendários;

Estratégia comum de eventos âncora;

Redução da sobreposição de grandes jogos;

Minimização da concorrência direta entre modalidades;

Uso estratégico das plataformas digitais (YouTube, Instagram, Facebook);

Diversificação de receitas através de publicidade e subscrições;

Cooperação entre federações.

O exemplo do hóquei em patins e do futsal, que terminam épocas após outras modalidades, é apontado como modelo positivo.


A ideia central: trabalho coletivo

“O maior força de cada modalidade será sempre o trabalho coletivo com as outras modalidades”, conclui Rui Lança.

O desafio das modalidades em Portugal não é apenas financeiro — é estrutural, cultural e organizacional. Sem coordenação, narrativa conjunta e visão estratégica, a dependência do futebol continuará a condicionar o crescimento sustentável do desporto nacional.

O alerta está lançado.


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