Jogo 4 entre a Glória e a Sobrevivência, por António Aires



Quarenta minutos… ou mais! É tudo o que separa o Benfica da reconquista do título nacional. É tudo o que o Sporting tem para manter viva uma época que ainda há poucos dias parecia poder terminar em festa. Depois de três jogos intensos, imprevisíveis e de enorme qualidade, a final da Liga Placard entra agora no momento mais delicado. O Benfica chega ao Pavilhão João Rocha em vantagem (2-1) e com a primeira oportunidade para fechar a eliminatória. Dispõe do primeiro match point. O Sporting joga perante os seus adeptos sabendo que apenas a vitória permitirá levar a decisão para um quinto e último jogo.

A terceira partida mostrou, uma vez mais, porque esta é uma das maiores rivalidades do futsal europeu. Foi para mim, o melhor jogo de futsal da presente época a nível interno. Um jogo de emoções constantes, carregado de enorme qualidade técnica e tática, apesar desta ultima ter muitos momentos de "caos". O Benfica voltou a demonstrar a sua enorme competência nas bolas paradas, construindo dois golos através de livres estudados que voltaram a evidenciar o trabalho de Cassiano Klein neste momento do jogo. O Sporting respondeu sempre e nunca permitiu que o adversário fugisse definitivamente no marcador e encontrou em Pauleta o homem da reação, recuperando uma desvantagem de dois golos em poucos minutos.

Nem o prolongamento resolveu aquilo que as duas equipas foram incapazes de decidir em cinquenta minutos de enorme intensidade. Só as grandes penalidades acabariam por sorrir ao Benfica, depois de Diogo Carrera defender o remate de Zicky Té.

Mas há um dado que merece reflexão. Dos três jogos disputados, o Sporting entrou sempre em desvantagem. Em todos eles foi obrigado a correr atrás do resultado. E, ainda assim, conseguiu discutir cada partida até aos instantes finais. É precisamente esse aspeto que Nuno Dias pretende alterar. O técnico leonino foi claro: a equipa não pode continuar a oferecer vantagens ao adversário logo nos primeiros minutos nem permitir que o Benfica capitalize erros individuais sem necessidade de construir as suas oportunidades.

Na verdade, uma parte significativa dos golos encarnados nesta final nasceu precisamente dessa capacidade para explorar perdas de bola e momentos de menor lucidez do Sporting. Se os leões quiserem prolongar a decisão até domingo, terão, na minha otica, necessariamente de reduzir esse número de erros não forçados.

Curiosamente, Nuno Dias considera mesmo que o Sporting tem sido, globalmente, superior na eliminatória. A goleada do segundo jogo, o volume ofensivo produzido na Luz e a forma como a equipa conseguiu discutir o terceiro encontro sustentam essa leitura. Mas o próprio treinador reconhece que existe uma diferença decisiva: a ansiedade nos momentos de finalização e a forma como a equipa reage às dificuldades que surgem durante o jogo. Do lado encarnado, Cassiano Klein apresenta uma visão um pouco diferente. Para o treinador brasileiro, a vitória no terceiro jogo foi consequência da enorme consistência competitiva demonstrada pela sua equipa, da capacidade para lutar "por cada milímetro" e da resposta dada após a pesada derrota sofrida no João Rocha.

É nestes momentos que penso, que o factor de rendimento, que apelidamos de Psicológico ganha preponderância nas acções dentro da quadra. Como cada equipa irá transportará essa carga emocional para o quarto encontro poderá revelar-se decisivo e determinante na 4ª partida. Pessoalmente, não espero que taticamente aconteçam grandes revoluções. Algumas, quiçá, pontuais, talvez nos esquemas táticos e no 5x4 com guarda-redes subido/aberto, como em situação limite para inverter o resultado desfavorável nos minutos finais.

O Benfica continuará fiel ao seu modelo assente na circulação em 4x0, pontuado a espaços pela profundidade e o jogo interior que Jacaré e Higor podem aportar à equipa. A qualidade das suas bolas paradas vai estar dos dois lados. No lado encarnado, a criatividade de Arthur, a experiência de Diego Nunes e Panny, bem como a irreverência de Lúcio, Carlinhos e Kutchy. Sempre que possível, Léo Gugiel voltará a assumir um papel importante na construção ofensiva mas sobretudo na defesa das suas redes.

O Sporting deverá manter a sua identidade mais vertical, procurando acelerar o jogo, aumentar a intensidade defensiva e colocar Zicky Té, Rocha e Allan em melhores condições de finalização. Alex Merlim continuará a ser o principal organizador ofensivo, enquanto Diogo Santos terá novamente um papel determinante no equilíbrio entre os diferentes momentos do jogo. Acredito que Pauleta e Felipe Valério vão tentar desconstruir a estabilidade defensiva da àguia.

Há ainda um dado histórico a pesar: m vinte edições de play-off, apenas duas finais terminaram em 3-0. A maioria das decisões prolongou-se até aos últimos jogos da série, confirmando que, quando Benfica e Sporting discutem títulos, raramente existe um vencedor antecipado.

O Pavilhão João Rocha, à semelhança do que sucedeu no Pavilhão Fidelidade promete voltar a vestir-se de verde e branco para empurrar o campeão europeu rumo ao quinto jogo. Do outro lado estará um Benfica que sabe que uma vitória significa voltar a subir ao lugar mais alto do futsal português.

No fim, pouco importará quem teve mais posse, quem rematou mais vezes ou quem desenhou melhor as suas movimentações ofensivas.

Importará apenas quem conseguirá controlar as emoções quando o relógio apertar iniciar a contagem.

Há jogos que atribuem pontos. Há jogos que entregam troféus. E depois existem jogos como este, onde não haverá espaço para cálculos, nem para gestão. Num lado da quadra estará uma equipa que procura transformar a consistência em glória. No outro, um campeão europeu que se recusa a abdicar da luta enquanto houver um segundo por jogar.

Cada vez tenho mais esta certeza, que quando leões e águias discutem um título, o futsal português pára para assistir. E a história espera sempre por mais um capítulo inesquecível.

Viva, o Futsal.

Antevisão de António Aires do Jogo 4 da Final da Liga Placard


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