O 2º Round promete confirmar sinais e desfazer dúvidas, Antevisão de António Aires
Vai começar o 2º Round. A 1ª jornada deixou água na boca. Benfica ganhou sem deslumbrar durante largos períodos de tempo, com o UP da Venda Nova a replicar; Sporting ganhou mas deixou dúvidas, sobretudo na atitude, com o treinador a deixar uma mensagem clara, para dentro do seu grupo. Portimonense perdeu mas saiu valorizado e demonstrou atitude competitiva; Eléctrico apresentou-se mais sólido do que o Torreense; Fundão bateu um Braga com hiatos de distracção carimbado ao soar da buzina; Zêzere apresentou-se com atitude achigã, diante de um Porto Salvo em reconstrução de identidade; E por fim, Rio Ave e Famalicão, no jogo onde tivemos mais golos, evidenciaram qualidade ofensiva, mas também demasiada permeabilidade. O campeonato promete.
PORTIMONENSE SC vs SL BENFICA
O calendário não foi propriamente generoso com o Portimonense. Depois da deslocação ao João Rocha, onde perdeu apenas 1-0 com o Sporting, recebe agora o campeão nacional. O resultado da primeira jornada é importante: apesar da derrota, os algarvios mostraram capacidade para manter o jogo vivo até ao fim diante de um adversário claramente superior no plano teórico. Agora, surge um Benfica que venceu o UPVN por 4-1 e confirmou aquilo que antecipávamos com uma réplica interessante da equipa de Alcides Lopes. Para o Portimonense, a receita deverá voltar a passar por reduzir espaço interior, controlar a profundidade e não oferecer perdas em zonas de construção. Com capacidade de surpreender, ameaçar e concretizar. Os alvinegros prometem lutar por um lugar ao sol nesta liga. Quanto mais tempo conseguir manter o marcador equilibrado, mais desconfortável poderá tornar o jogo para o Benfica. A grande questão é física e mental: depois de resistir tão bem ao Sporting, conseguirá repetir o mesmo nível de concentração durante mais 40 minutos contra outra equipa com enorme capacidade individual? Esta é a minha dúvida inquietante.
Chave do jogo: a capacidade do Portimonense para sobreviver à pressão alta do Benfica e impedir que o campeão encontre rapidamente vantagens quer por ações colectivas, quer por ações individuais dos seus jogadores.
ELÉCTRICO FC vs RIO AVE FC
Um dos jogos que mais me desperta curiosidade. O Eléctrico foi a Torres Vedras vencer por 3-1 e deu uma primeira confirmação daquilo que Jorge Monteiro procura, uma equipa competitiva, organizada e emocionalmente ligada ao jogo e ter uma época mais tranquila. O resultado ganha ainda mais valor por ter sido conseguido fora de portas. Mas um jogo com expulsões. Venceu quiçá o pragmatismo. Do outro lado, vamos ter um Rio Ave que empatou 4-4 com o Famalicão num encontro completamente aberto, com reviravoltas, e aqui também com expulsões e até um autogolo para cada lado. Isso evidencia duas coisas: capacidade ofensiva, mas também demasiada exposição e até mesmo desorganização defensiva. Em Ponte de Sor, creio que teremos um jogo equilibrado. As duas equipas têm jogadores experientes. Quem vai superar com distinção os momentos de desequilíbrio? Quem se vai sentir mais confortável em contextos, onde se pode explorar erros, transições e momentos emocionais? Honestamente, vejo aqui um verdadeiro teste à maturidade do projeto vila-condense, que honestamente se preparou para uma época, onde quer ter uma presença significativa. Tem jogadores para assumir o jogo mas a equipa da casa vai querer somar os pontos em disputa.
Chave do jogo: creio que vencerá quem conseguir impor o ritmo e as suas ideias. Com base do que vi na 1ª jornada, atrevo-me a dizer: se for um jogo controlado e posicional, o Rio Ave pode beneficiar, se por sua vez, se transformar numa sucessão de transições, o Eléctrico cresce e pode ferir significativamente os homens do mar.
SC BRAGA vs SCU TORREENSE
Duas equipas chegam pressionadas pelos resultados da primeira jornada, embora por razões diferentes. Os guerreiros do Minho perderam 3-2 na serra, depois de entrar na época com um discurso claramente ambicioso. É verdade que uma derrota não altera um projeto, mas obriga imediatamente a uma resposta. Joel Rocha disse recentemente que o Braga não deve comparar-se com os outros, mas consigo próprio, reforçando a ideia de evolução interna e exigência permanente, bem como competir sempre durante 40 minutos. Como o capitão Tiago Brito foi incisivo e claro nas declarações prestadas no final da partida, porque estar e servir o Braga exige ir até aos limites das suas forças. Neste jogo, Daniel Airoso marcou no regresso ao campeonato português. O Torreense também perdeu, 1-3 diante do Eléctrico, e confirmou algumas das dúvidas normais de um plantel jovem e profundamente renovado. Naná tem matéria-prima interessante, mas ainda precisa de acelerar o processo de maturação competitiva. Arte e engenho não lhe falta mas o tempo é um inimigo permanente. Jogando em casa, os Bracarenses têm mais obrigação de assumir as redes do jogo. O perigo para os arsenalistas está precisamente aqui: confundir intensidade com precipitação. Um Torreense jovem pode sofrer se for obrigado a defender longos períodos, mas também pode aproveitar espaços se o adversário se expuser demasiado e tiver hiatos de distracções, como sucedeu no Fundão.
Chave do jogo: a reacção emocional do Braga à derrota no Fundão. Se transformar pressão em agressividade organizada, parte claramente na frente para sair vencedor.
FC FAMALICÃO vs SPORTING CP
O Sporting chega a Famalicão num momento muito forte. Ganhou a Supertaça, venceu o Portimonense na estreia e, a meio da semana, depois do "raspanete" de Nuno Dias, goleou o Fundão por 7-0 num jogo antecipado da 7.ª jornada. Nota que destaco é que soma dois jogos de Liga sem sofrer qualquer golo. Única equipa que regista este feito. Esse último resultado foi particularmente esclarecedor. As bolas paradas continuam a fazer tlintar as redes adversárias. Wesley marcou praticamente de entrada, Tomás Paçó bisou, Rúben Teixeira voltou a marcar, num golo de alto recorte técnico e o Sporting mostrou capacidade para acelerar quando o adversário começou a cometer erros. A equipa de Nuno Dias quando está focada, dilacera qualquer adversário sem piedade. O Famalicão, por sua vez, com Cláudio Martins ao leme revelou características interessantes. Destaco um miúdo que já tinha observado, em tempos, na formação do Nogueiró de seu nome Filipe Costa. Miúdo com personalidade. O empate 4-4 com o Rio Ave revelou capacidade ofensiva e personalidade para competir num jogo cheio de mudanças, mas também confirmou vulnerabilidades defensivas, com os guarda-redes de ambos os conjuntos a serem infelizes nos seus gestos técnicos entre os postes. E este é precisamente o problema, pois quando se enfrenta o Sporting: erros posicionais que podem passar sem castigo contra outros adversários transformam-se rapidamente em golos. Um leão concentrado: mata! O Famalicão joga em casa, tem jogadores capazes de atacar espaço e poderá tentar retirar conforto à construção leonina.
Chave do jogo: a capacidade do Famalicão para defender sem baixar excessivamente e, sobretudo, para não oferecer perdas de bola fáceis ao Sporting.
UP VENDA NOVA vs LEÕES PORTO SALVO
Aqui temos dois clubes que procuram a primeira vitória, mas em contextos completamente diferentes. O UPVN perdeu 4-1 na Luz, resultado perfeitamente compreensível, para uma equipa que fazia a estreia absoluta na Liga Placard. O mais interessante nesta segunda jornada é que agora começa uma fase muito mais reveladora para medir realmente o nível competitivo do recém-promovido. Alcides Lopes deixou esta semana uma frase relevante: o UPVN não deve nada aos restantes clubes em termos de volume de treino. Isso diz muito sobre a intenção de profissionalizar comportamentos e reduzir a diferença estrutural para a elite. Os Leões, por outro lado, deixaram escapar dois pontos frente ao Ferreira do Zêzere num 2-2 onde tiveram dificuldades em gerir vantagens. Miguel Velez já admitiu que a equipa "vai errar muito", algo natural num grupo profundamente remodelado. Duas equipas em busca da sua identidade e na persecução em consolidar processos, que naturalmente leva o seu tempo. Se a medida para aquilatar "favoritismos" for a qualidade individual, Porto Salvo leva uma certa vantagem, quer pelo histórico como a "rodagem" dos seus jogadores. Mas cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém, e esta deslocação pode ser traiçoeira precisamente porque o UPVN vai encarar o jogo como uma oportunidade real de pontuar. Fazer história.
Chave do jogo: perceber se os Leões conseguem ter paciência para desmontar um adversário previsivelmente muito comprometido defensivamente, que tentará explorar qualquer oportunidade para finalizar com sucesso.
FERREIRA DO ZÊZERE vs AD FUNDÃO
Talvez seja, para mim, o jogo mais intrigante da jornada. O Ferreira do Zêzere foi buscar um empate a Porto Salvo, confirmando aquilo que já suspeitávamos: é uma equipa com continuidade, identidade e capacidade para competir em ambientes difíceis. Honestamente perdeu, para mim, alguma magia com a emigração de Jô Mahrez. O Fundão viveu uma semana completamente diferente. Começou com uma excelente vitória por 3-2 sobre o Braga, no último lance da partida, mas poucos dias depois sofreu uma goleada pesada, 7-0 no João Rocha, no encontro antecipado da 7.ª jornada. E aqui surge uma questão muito interessante: qual dos dois "Fundões" vai a jogo? A equipa que derrotou os guerreiros do Minho ou a que cometeu erros graves perante a pressão do leão de Alvalade? Sejamos humildes na análise e saibamos contextualizar o 7-0. O Sporting está num nível competitivo muito elevado e vários golos nasceram de erros individuais claros, na minha óptica. Uma goleada pode deixar marcas, mas aqui terá que ser Nuno Couto, que melhor que ninguém conhece a sua equipa, a recuperá-la. Ele afirmou que considera ter uma equipa mais consistente, completa e com mais soluções. Péleh e Miranda são dois exemplos. O Zêzere, por sua vez, terá um excelente teste pra confirmar o que evidenciou na primeira jornada, pois para mim o grande reforço de Cristiano Coelho foi manter a continuidade do núcleo da sua equipa.
Chave do jogo: a resposta mental do Fundão depois dos sete golos sofridos e a capacidade do Ferreira para explorar qualquer insegurança. E não podemos esquecer o ambiente da quadra dos "achigãs" que é um doping caseiro que potencia os seus homens para as batalhas.
Concluindo, a primeira ronda deixou pistas, mas ainda não certezas. Agora começam os primeiros testes de confirmação. Há equipas que procuram validar bons sinais, outras que têm de reagir e algumas que continuam à procura da sua identidade. Ainda é cedo para definir hierarquias, mas já começa a contar a capacidade de corrigir, evoluir, competir e sofrer dentro da quadra. Porque no futsal um detalhe muda tudo: uma distracção custa caro, uma transição dura segundos e um pavilhão cheio pode empurrar uma equipa para além dos seus próprios limites.
Viva, o futsal.