5 anos depois de Kaunas, Portugal continua a sentir o eco do tecto do mundo
Há datas que não envelhecem. Há dias que, por mais que o calendário avance, teimam em permanecer frescos na memória colectiva de um povo. Hoje, 3 de outubro, cumprem-se 5 anos sobre uma dessas datas. Portugal 2-1 Argentina. Kaunas, Lituânia. Pany Varela a resolver, Ricardinho a levantar o troféu. A selecção portuguesa de futsal campeã do Mundo. Pela primeira vez na história.
Meio século depois de a modalidade começar a entrar pela porta da ginástica artesanal portuguesa, primeiro nos pátios das escolas, depois nos pequenos pavilhões de freguesia e, finalmente, nos palcos da Liga Placard e das grandes competições internacionais, a Equipa das Quinas conseguia o que durante anos pareceu quase inatingível, colocar Portugal no topo do planeta futsal.
O caminho de uma geração que se recusou a desistir:
Portugal chegou a Kaunas com um pergaminho recente marcante, era campeão da Europa, título conquistado em Liubliana, em 2018. Essa consagração foi, provavelmente, a pedra fundadora daquele outro título ainda maior. Marcou um antes e um depois no futsal português. Os jogadores perceberam que podiam. Jorge Braz passou a trabalhar com uma convicção blindada. O país começou a acreditar.
No Mundial de 2021, adiado em um ano por força da pandemia, Portugal não teve o percurso mais linear. Teve de suar, teve de sofrer e teve, acima de tudo, de mostrar carácter.
· Nos oitavos, bateu a Sérvia por 4-3, apenas no prolongamento.
· Nos quartos-de-final, voou perante a Espanha, reeditando o fantasma dos duelos ibéricos e levou a melhor por 4-2, também no prolongamento.
· Nas meias-finais, recuperou de desvantagem perante o anfitrião Cazaquistão e venceu nas grandes penalidades (2-2, 4-3 nos penáltis).
Na final, a grande final, superiorizou-se à campeã mundial em título Argentina por 2-1.
Pany Varela, aquele miúdo com um pé capaz de desenhar sonhos, bisou. Ángel Claudino reduziu, mas Portugal segurou, defendeu, cresceu-se e carimbou o seu nome na história.
Portugal tornou-se, nesse momento, o primeiro país europeu a juntar, pelo mesmo caminho, o título europeu e o título mundial.
Ricardinho, uma vida de futsal com apoteose final:
Era o seu nono campeonato de selecções. Era a sua última grande missão. Ricardinho, o mago, o artista, o génio, o maior jogador de futsal da história segundo muitos, teve finalmente aquilo que lhe faltava. O ouro mundial. Erguer o troféu em Kaunas, com a braçadeira de capitão, e ser eleito Jogador do Torneio foi a justiça poética que a modalidade lhe devia. E foi, também, uma despedida à altura do que Ricardinho sempre significou.
O que esta conquista trouxe ao futsal português?
Esta é a pergunta que, cinco anos depois, mais nos deve interessar enquanto adeptos, treinadores, dirigentes e observadores. Porque uma conquista desta dimensão não vale apenas pelo momento, vale, sobretudo, pelo que fica.
1. Credibilidade internacional: o futsal português passou a ser estudado, copiado e respeitado em todo o mundo. Clubes, treinadores e federações estrangeiras começaram a procurar os métodos portugueses, as ideias de jogo, a nossa forma de formar jogadores, a matriz competitiva do nosso campeonato.
2. Explosão do investimento na formação: proliferaram academias, projectos de formação mais estruturados, aumentou o número de crianças a inscreverem-se nas escolas de futsal e começaram a surgir planos de desenvolvimento municipais e associativos mais sérios. O efeito Mundial foi uma onda que o país soube surfar.
3. Valorização dos jogadores portugueses no mercado: o nome "Portugal" passou a ser moeda forte nos mercados internacionais. Pany Varela, Zicky Té, Erick Mendonça, Tiago Brito, Bruno Coelho, Afonso Jesus, Fábio Cecílio e muitos outros subiram de valor e abriram portas a uma geração nova que começa agora a reclamar o seu espaço.
4. Força do produto Liga Placard: o campeonato nacional ganhou visibilidade, patrocínios, transmissões e novos adeptos. Os clubes passaram a estruturar-se melhor, a profissionalizar departamentos e a competir ao mais alto nível europeu. Sporting e Benfica em particular, embalados por este sentido de ambição coletiva, conquistaram UEFA Futsal Champions League e títulos europeus que confirmam que o futsal português é, hoje, uma potência verdadeira.
5. Transformação cultural: o futsal deixou de ser visto como "irmão pequeno" do futebol. Para muitas crianças, hoje, o sonho é jogar na Equipa das Quinas. Para muitas famílias, levar o filho ao futsal já não é uma segunda opção. Chama-se projecto de vida. Isto é cultural. Isto é profundo. Isto é o verdadeiro legado.
6. Papel das selecções jovens: depois do Mundial, assistimos a uma cadeia virtuosa nos escalões Sub-15, Sub-17, Sub-19 e Sub-21. Portugal passou a estar praticamente sempre nas fases finais do Europeu de Sub-19, com atletas que absorveram, ainda no banco das escolinhas, a ideia de que podem ganhar tudo. Essa confiança é impagável.
7. Valorização do futsal feminino: o brilho conquistado pelos homens abriu caminho a mais atenção, investimento e estrutura para o escalão feminino. A Selecção Nacional Feminina, vice-campeã do mundo e com um Luís Conceição a construir um projecto sólido, é também, em parte, filha deste efeito dominó que começou em Kaunas.
A emoção que não se desfaz:
Houve milhões de portugueses a saltarem do sofá. Houve lágrimas nos balneários da Liga Placard, nos cafés de aldeia, nas praias algarvias, no Minho e no Alentejo. Houve a sensação, meio difícil de explicar, de que algo se consumou e que, a partir dali, nada seria igual.
E, por isto tudo, hoje importa recordar. Importa honrar aquela geração. Importa lembrar Jorge Braz, que trabalhou com humildade, inteligência e capacidade de construção, qualidades que fizeram dele um dos melhores treinadores do mundo. Importa lembrar Ricardinho, o "menino" que nunca deixou de sonhar. Importa lembrar Pany Varela, que colocou Portugal no topo com um bis que vale uma eternidade. E importa lembrar o grupo todo, o plantel inteiro, dos titulares aos suplentes, dos capitães aos mais jovens, todos, sem excepção, artífices de um feito histórico.
5 anos depois… o eco ainda ressoa em cada pavilhão. Em cada livre lateral desenhado por um treinador de formação, em cada esquema de cinco inicial adaptado para a Sub-15, em cada jovem que diz à mãe que quer ser Ricardinho, Pany Varela ou Zicky Té.
Obrigado a essa geração. Obrigado a esse plantel. Obrigado por nos terem feito acreditar.
Foto - EPA