A tecnologia transformou o corpo em dados. O trabalho é transformá-los outra vez em pessoas.
O relógio não vê o pivô
A tecnologia transformou o corpo em dados. No futsal, os números são outros, e a última palavra continua a ser nossa.
Esta semana li no Observador um especial da Susana Marvão sobre o corpo transformado em dados: relógios, anéis, pulseiras, cintas cardíacas, inteligência artificial a prescrever treinos. Fala-se de 225 milhões de pessoas com smartwatch no pulso. De um mercado de dezenas de milhares de milhões de euros.
E fala-se de um triatleta que, antes das provas importantes, ignora os alertas do relógio.
Porque o corpo ainda é dele.
Fiquei com esta frase na cabeça a semana inteira. E dei por mim a pensar no nosso jogo.
O futsal não cabe num relógio
O artigo fala de corrida, natação, ciclismo. Desportos de ritmo. De esforço contínuo, quase previsível.
O futsal é o contrário disso.
Quando Barbero-Álvarez e colegas analisaram jogadores em competição, encontraram uma frequência cardíaca média de 90% da máxima durante o jogo. Os jogadores passavam 83% do tempo acima dos 85% da frequência cardíaca máxima. Percorriam cerca de 117 metros por minuto, e quase 9% dessa distância era feita em sprint. A conclusão deles é simples: o futsal é um desporto de sprints repetidos, com mais fases de alta intensidade do que o futebol e do que outros desportos intermitentes (Barbero-Álvarez et al., 2008).
A revisão sistemática de Spyrou e colegas confirma o retrato: intensidade média igual ou superior a 85% da FCmáx, cerca de 80% do VO2máx, quebra de rendimento da primeira para a segunda parte e função neuromuscular afetada até 24 horas depois do jogo (Spyrou et al., 2020). No futsal feminino, a revisão de Barreira e colegas encontra o mesmo padrão: exigência fisiológica muito alta, sobretudo na primeira parte, e quebra na segunda (Barreira et al., 2025).
Agora pensem num relógio de pulso no meio disto.
Os estudos de validação dizem-nos que os sensores óticos de pulso são razoáveis em esforços estáveis, mas perdem precisão quando a intensidade dispara. Num estudo com quatro relógios populares, dois deles tendiam a subestimar a frequência cardíaca acima das 150 batidas por minuto (Martín-Escudero et al., 2023). Noutro, o erro nos intervalos de alta intensidade chegou aos 11 a 14%, sobretudo quando o movimento do pulso não era repetitivo (Reddy et al., 2018).
Arrancar. Travar. Mudar de direção. Proteger a bola com o braço. Cair.
O futsal é tudo menos repetitivo.
O que interessa medir não é o que o relógio mede
Há um estudo português que eu gostava que todos os treinadores lessem. Ribeiro, Bruno Gonçalves, Bruno Travassos e colegas monitorizaram 28 jogadores na Final Eight da Taça de Portugal de 2018. Queriam perceber quais as variáveis que melhor descrevem o esforço de um jogador de futsal de elite.
A resposta não foi a distância total.
Foram as desacelerações. Depois os sprints acima dos 18 km/h, os metros por minuto e a potência metabólica (Ribeiro et al., 2020).
Travar.
No futsal, o que mais pesa no corpo é muitas vezes o momento em que paramos. A mudança de direção para fechar a linha de passe. O travão para não deixar o pivô rodar. A paragem seca antes de saltar para a pressão.
Um relógio que conta passos não vê nada disto.
Para medir isto num pavilhão, onde o sinal de satélite não entra, são precisos sensores inerciais ou sistemas de posicionamento local. A boa notícia é que estão a chegar a preços que já não são só para os grandes: há dispositivos recentes testados em contexto de futsal com boa concordância nas variáveis principais (distância, acelerações, desacelerações, velocidade máxima). Mas falham em algumas métricas, como a corrida a velocidade média ou o número de acelerações intensas (Gadea Uribarria et al., 2023; Lago-Fuentes et al., 2024).
Ou seja: mesmo a melhor tecnologia tem zonas cegas.
E o treinador tem de as conhecer.
O método mais barato continua a funcionar
Há uma ferramenta de monitorização que não precisa de bateria.
Chama-se perguntar.
O método da perceção subjetiva do esforço da sessão (session-RPE) é simples. No fim do treino, cada jogador dá uma nota de 0 a 10 ao esforço que sentiu, e essa nota é multiplicada pelos minutos de treino. Uma revisão com dezenas de estudos de validação confirma que é válido e fiável em vários desportos, idades e níveis competitivos (Haddad et al., 2017). No futsal, já foi usado para acompanhar a carga ao longo de uma pré-época de 14 semanas, com melhorias no VO2máx, na velocidade, na agilidade e na impulsão (Freitas et al., 2012).
E quando se cruza a perceção com a fisiologia, os dois conversam. Num estudo com uma equipa feminina profissional de futsal acompanhada durante 26 semanas, quanto maior a carga interna reportada pelas jogadoras, maior a instabilidade semanal da variabilidade da frequência cardíaca (Nakamura et al., 2023).
O corpo fala.
A pergunta certa, feita todos os dias, ouve-o.
Os dados são uma lanterna, não um GPS
Não escrevo isto contra a tecnologia. Construí uma aplicação de análise de vídeo porque acredito que medir melhor nos faz treinar melhor.
Mas o especial do Observador lembra uma coisa que no futsal sabemos de cor: um número sozinho não diz nada. Conta a tendência, não o valor isolado. Conta o contexto: o jogo de ontem, o exame de amanhã, a noite mal dormida, o filho que nasceu, o contrato que acaba.
Um jogador com uma carga alta pode estar no seu melhor momento.
Outro com uma carga baixa pode estar à beira de partir.
Os dados iluminam o caminho. Não o escolhem.
No fim, é o treinador que decide
O triatleta do artigo ignora o relógio antes das provas importantes porque conhece o seu corpo melhor do que qualquer algoritmo.
No futsal, essa responsabilidade está repartida. O jogador sente. O preparador físico mede. O treinador decide.
E decidir bem exige três coisas:
Saber o que o nosso jogo exige. Sprints repetidos, travagens, mudanças de direção, intensidade acima dos 85% durante a maior parte do tempo.
Saber o que as ferramentas medem e o que lhes escapa. O relógio de pulso não é um colete com sensor. O sensor não é um questionário. E o questionário não é uma conversa.
Saber que, no fim, quem está em campo é uma pessoa.
A tecnologia transformou o corpo em dados.
O nosso trabalho é transformar os dados outra vez em pessoas.