Pedro Costa é estrela no país do Sol Nascente
Em quatro anos afirma que há aspetos da cultura e tradição japonesas que já se enraizaram na sua vida, confessa que está a ser uma experiência incrível e não se arrepende de ter embarcado nesta aventura. A língua, claro está, continua a ser uma pedra no sapato, mas Pedro Costa diz que já se desenrasca.
«Apesar de não me limitar em nada, a língua ainda é uma dificuldade. Confesso que depois de quatro anos aqui já devia falar fluentemente japonês, mas o facto de ter tido sempre colegas ou treinador a falar português (brasileiro) e espanhol e ter tradutores não me fez empenhar, mas continuo a ter aulas. O mais engraçado é que tento falar com eles em japonês e eles, que têm muita vontade aprender, respondem-me em português. Às tantas estamos todos a falar em português, e entendemo-nos. Contudo, sei ler e escrever japonês. Existem três abecedários: o tradicional (chinês), um só para japoneses e outro com os estrangeirismos. Mas, confesso que há muita coisa que não sei o que significa (risos)», conta.
Apesar de Nagoya ser a cidade que detém um dos maiores portos do Japão, contribuindo para que seja classificada como a terceira mais rica do país, atrás de Tóquio e Osaka, com cerca de dois milhões de habitantes, Pedro Costa leva uma vida pacata.
- Levanto-me por volta das 8 da manhã, leio sempre as notícias desportivas de Portugal e também da sociedade, vejo o Facebook, atualmente também um meio de informação, e depois vou treinar. Chego sempre com meia hora de antecedência porque gosto de ter tempo para me equipar com calma. Graças a Deus não tenho tido lesões e passo pela sala de fisioterapia só para dar os bons dias (risos) e vou treinar. Como moro perto do pavilhão vou sempre almoçar a casa. Depois descanso um pouco, mas não durmo a sesta, nunca gostei, aproveito para fazer umas compras ou tratar de algum assunto, antes do treino vespertino. Depois fico mais algum tempo para fazer alongamentos e recuperação porque a idade obriga-me a ter mais cuidados.
Aquelas ventosas de polvo...
A alimentação foi outro aspeto a que Pedro Costa teve de se habituar. Sushi com fartura, o que para o jogador e a namorada não é problema, mas há coisas que ainda não se atreveu a pôr à boca...
«Há uma espécie de feijão que cheira a pobre e, sinceramente, não tenho qualquer vontade nem curiosidade em provar (risos)», confessa.
A pergunta impõe-se: O que é que já comeu de estranho?»
- Um polvo cortado aos bocadinhos, que vem no prato ainda a mexer e que quando comemos as ventosas prendem-se na boca. Mas só provei...
Contudo, Pedro Costa diz que no Japão reeducou-se no que à alimentação diz respeito: «É um aspeto positivo pois aprendi a gostar de quase tudo aqui e a fazer uma alimentação bem mais equilibrada.»
Volante à direita, multas e trânsito sem buzinadelas!
Pedro Costa faz uma vida autónoma e desde que chegou ao Japão que conduz. É certo que teve dificuldades em habituar-se a um carro automático, com volante à direita e a conduzir pela esquerda. Diz que adaptação até foi rápida, mas não se escapou a duas multas.
«Uma foi num semáforo, que aqui funcionam de maneira diferente, por exemplo, abre o verde só para quem vai para a esquerda, depois para quem segue em frente ou vira para a direita, mas nem sempre por esta ordem. Fui abordado com muita educação, mas como não percebi metade do que me estavam a dizer tive que telefonar ao tradutor. Da outra vez ia a falar ao telemóvel com os meus filhos. A polícia seguiu-me quase durante dois quilómetros até eu parar o carro, estacionaram e dirigiram-se a mim, bateram no vidro do carro, desdobraram-se em pedidos de desculpa por me estarem a incomodar e passaram a multa. Mas por aqui é tudo muito tranquilo no trânsito, nem sequer há buzinadelas », recorda.
Saudades de um abraço de amigos
Com os filhos em Portugal a voz fica embargada quando lhe é perguntado do que sente mais falta de Portugal.
«Os meus pequeninos, claro. E da família. E dos amigos. Tenho raízes muito fortes aí que não me deixam esquecer do que me faz falta. Mas foi uma opção minha, já sabia que teria de abdicar de coisas de que gosto, pessoas e hábitos. Sinto-me bem aqui e fui muito bem recebido por todos. Aliás, os portugueses no Japão são muito bem vistos e respeitados. E sei que gostam de mim e tenho cá amigos, mas por vezes sinto falta das brincadeiras e de um forte abraço dos meus amigos portugueses», confessa.
E que tal acabar na futura liga norte-americana?
Desportivamente falando, Pedro Costa já conquistou três títulos de campeão japonês, duas taças e quatro supertaças. A título individual alcançou a meta dos 100 jogos na liga e na época passada fez parte do cinco ideal do campeonato. Não se arrepende de ter deixado o Benfica para vestir a camisola do Nagoya Oceans e nem o facto de ser o mais velho do plantel o faz pensar em arrumar as sapatilhas.
«Estou muito satisfeito com o meu percurso aqui. Agora, à distância, percebo que no último ano do Benfica não estava concertado a cem por cento, pois andava na universidade e abri um restaurante. Aqui, apesar dos meus 36 anos, sinto que tenho melhorado o meu desempenho e prova disso foi o meu regresso à Seleção Nacional, o que é sinónimo da minha boa condição física. Ano após ano estou a marcar mais golos e sou um dos jogadores com mais minutos de utilização. E enquanto conseguir acompanhar os miúdos de 20 anos e o meu corpo continuar a dar boas respostas, jogarei. Também me preocupo em ajudar os mais novos a afirmarem-se, pois aqui sentem grande dificuldade devido à quase vassalagem para com os mais velhos», salienta.
O regresso a Portugal não está no horizonte, mas há um sonho que Pedro Costa confessa a A BOLA que ainda pode vir a concretizar-se: «Há notícias que dão conta que em novembro de 2016 arranca a liga norte-americana, já a nível profissional com o auxílio da federação espanhola. Seria perfeito para ajudar o desenvolvimento do futsal naquele país e para terminar a minha carreira. Para já, tenho contrato com o Nagoya até março de 2016, depois logo se vê.»
Insultos? Asneiras? Não há disso no Japão
Quando chegou ao Nagoya Oceans, Pedro Costa tinha acabo de disputar a final four do Campeonato Nacional contra o Sporting, escusado será dizer com ambiente infernal nas bancadas entre adeptos dos clubes eternos rivais. No primeiro jogo apercebeu-se logo das diferenças a que ia ter de se habituar...
- Não há palavrões, gritos, insultos ou assobios. Aliás, não há asneiras em japonês. O máximo dos máximos é chamarem burro a alguém. E em todos os finais de jogos há um ritual a cumprir: os cinco jogadores que terminam em campo fazem vénia, cumprimentam os árbitros, depois passamos pelo banco do adversário e cumprimentamos um a um, seguem-se o cronometrista e o terceiro árbitro, depois passamos pelo nosso banco para cumprimentar os colegas, seguimos para fazer a vénia à claque adversária, que nos aplaude de pé e grita o nome do nosso clube e, por fim, fazemos a vénia à nossa claque. Algo impensável em Portugal,
hein?
Abola
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